sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Inspiração

As palavras brincavam

nas calhas de um céu

descoberto.


E a inspiração gotejava

poesias no teto.
Momentos
 
      I
 
 
Já tive fogo nas mãos
 
e vaga-lumes na garganta
 
e canções iluminadas
 
vazavam do meu peito
 
em chamas.
 
Foi um tempo de descobertas
 
em que a alma míope
 
não distinguia acertos
 
e dúvidas
 
futuro e instante.
 
E as noites eram
 
visões de luas
 
e a vida
 
um sonho constante.
 
               
      II
 
 
O relógio arrebentou
 
as correntes
 
adormecidas sob a
 
paisagem
 
e foi um fremir de
 
folhas
 
(inundação de salivas ardentes)
 
na libertação das águas
 
represadas.
 
Do passado apenas
 
longínquos eflúvios
 
visita íntima
 
ao êxtase da alma
 
renovada.


Poema selecionado -  Antologia do III Prêmio Literário Canon de Poesia 2010.
O preço do poema
 
            
             I
 
 
Quanto vale o poema:
 
- nas frentes de batalha
 
- nas perdas irreparáveis
 
- na solidão que a alma talha?
 
 
Quanto vale o poema:
 
- aos nossos filhos drogados
 
- aos órfãos do destino
 
- aos desenganados?
 
O poema faz seu preço
 
ou o preço do poema
 
pelo tamanho da fome
 
é estipulado?
 
Quanto vale o poema:
 
- nas filas dos hospitais
 
- nas mutilações dos sonhos
 
- nas nossas guerras pessoais?
 
Quanto vale o poema:
 
- aos idosos desrespeitados
 
- às minorias esquecidas
 
- aos amantes desregrados?
 
O poema faz seu preço
 
ou deveras
 
estou enganado?
 
 
             II
 
  
Quanto nos cobra o poema:
 
 - por uma sinfonia de metáforas
 
 - por uma visitação à alma
 
 - por um deslumbre de voos?
 
Ou desapegado da matéria
 
doa-nos, ele, complacente
 
as suas inefáveis asas?
 
 
O preço do poema, senhores,
 
é o poeta quem paga!



Poema classificado: Noite Nacional da Poesia - União Brasileira de Escritores/MS
Valores


O meu pai foi meeiro

metade labuta, metade fé.


Amendoim, algodão, arroz...

De tudo ele plantou

e dividiu também

(estava no contrato verbal)

tempo de valores.


O meu pai foi meeiro

e nas partilhas de uma
 
vida simples

preservou-se íntegro

com suas alegrias e dores.


Selecionado: Prêmio Literário Cidade Poesia - 2010
Cidades
 
 
Não nasci em Itabira
 
por isso ao invés de aço
 
a minha saudade visita
 
as ruas enfeitadas
 
na comemoração do Corpus Christi.
 
Não cresci em Alegrete
 
e impregnada a minha pele está  
 
das ruas sem asfalto
 
das “peladas” nos terrenos baldios
 
no “Alto do Ginásio”, do “campo do Lapa”
 
lembranças que feito fuligem
 
escapam pelas chaminés do passado.
 
Gênese intacta
 
berço preservado
 
Matão cobra-me
 
fidelidade aos fatos.
 
Elevado à condição
 
de sertão macro
 
Sertãozinho observa
 
do poeta todos os passos.
 
Não resido em cidades
 
elas em mim se alojam
 
com suas essências, peculiaridades...
 
Matonense assumido
 
Sertanezino radicado
 
minha alma ainda abriga
 
em suspiros:
 
- Jaboticabal, Itabira, Alegrete, Goiás, Lambari...
 
e de todos os poemas
 
                         vestígios... 
Gota


A gota transcende 

                      à queda

e repousa calma

na folha que, solícita,

                           a recebe.


 O solo há tempos espera

 mas reluta a gota,

 ante a acolhida da folha

 a abandonar carícias certas.


Gota folha solo

triângulo inevitável

da chuva que é promessa.
Memória


Ah, memória,

tão amiga quão infame!

Por que insistes em vasculhar

esses depósitos de flores exangues?


Sacia-te a dor do poema?

Alivia-te a música do pranto?


Ah, memória,

bailarina de risos e desencantos!


Às vezes lua tranquila.

Às vezes escuro manto...
À mesa

À mesa

um diálogo adormecido

sob a toalha

impecavelmente cuidada e

alva.


Uma quase imperceptível

mancha

no olhar de café requentado

desafia a imutável calma.
 

E o dia borda fugas

Em retalhos de tempestades.


Classificado: Noite Nacional da Poesia/ União Brasileira de Escritores - UBE/MS
Borboletas no aquário
                    


                      I


Mantinha borboletas

No aquário.

Sentado à mesa

Com as mãos no rosto

Espalmadas

Tecia um fio de tempo

(Só seu)

A observar, através da transparência

das cortinas,

um balé de cores que reverberavam,

reverberavam...

                 

                II


Mantinha borboletas

No aquário

O silêncio a balbuciar 

Regozijos de naufrágios...

Mas, quando as mãos violáceas

Não pressentiram mais as cores

E a visão turva admitiu

Guelras na fala

Ao fio partido

Gritou

Ah, gritou!

Suspensos ao eco

Todos os mares não desbravados!
   

                 III  


Uma chuva fina e persistente

Lambia os alicerces do passado

Quando fez o que, há tempos, cogitava:

- Mirou o ponto luminoso no teto de tudo

- Guardou os álbuns de todas as renúncias

  Na gaveta do armário

- Fez par com a vida, num beijo inusitado

- E, finalmente, convicto, quebrou o aquário.
 
 
 


Poema do livro "Borboletas no aquário", também presente na Antologia do FEMUP - Festival de Música e Poesia de Paranavaí - PR

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Casa
 


Os retratos

 guardam e vigiam

 os teus passos,
 e os gritos das crianças

 correndo desenfreadas

 em suas paredes ficaram registrados.


 No vasto avarandado

 as mesmas redes descansam

 sob a prosa do crepúsculo

 e janelas de um tempo adormecido

 espiam um quintal lúdico

 e seus arrabaldes.


 E a solidão dos dias frios e chuvosos

 sempre será compartilhada

 por mãos trêmulas

 que bordam agasalhos

 suspiram saudades.
AS AUSÊNCIAS GERAM SONS


As ausências geram

Sons

Que atravessam a linha
 
 Do tempo.


 As ausências geram

 Sons

 Acordes involuntários
 
Alheios ao diapasão.


 As ausências geram

Sons 

 E perpetuam suas presenças

 Sem alarde.


 Oh, aromas da saudade

 Visitando remota canção!

Outono

Antes que o frio

do vindouro inverno

enrijeça os meus sentimentos

desfolharei todos os temores

que insistem em fincar

raízes adversas.


E em cada pedaço de silêncio

que o vento levar

repousará um verso

que servirá de elo

entre os amigos ausentes.


E o inverno será aconchegante

pois com os frutos produzidos

no outono

alimentarei a minha alma errante.
Pássaros

Não te assoberbes com

as alturas.

Outrora também

desafiei o espaço

em voos cegos,

(ocasionalmente de reconhecimento,

amiúde de ilibada entrega).


Escapei dos inimigos

com a serenidade de César

e em bolhas de sabão autodestrutivas

vislumbrei resquícios

da tíbia matéria.


Às vezes, extenuado,

do ponto mais alto observava

o vaivém das ondas errantes

ao vento as velas içadas.


Não te assoberbes,

pois,

do voo que hoje celebras

conheço a queda provável.
Chuvas


Ontem
 
tendo chovido
 
após prolongado estio
 
pôs-se a retira a poeira
 
que acumulada sobre
 
móveis e plantas
 
tencionava perpetuar
 
domínio.


Foi um limpeza cuidadosa
 
e demorada
 
como quisesse retirar
 
da pele
 
quaisquer afetos não vingados.


Ontem,
 
pois hoje já não chove,
 
e paira no ar
 
uma sensação recorrente

de aridez meio às águas.
ABRI, ENTÃO, UM LIVRO DE NIETZSCHE
 


O tempo

 Este soberano sábio

 Bateu à minha porta

 Com estampado sorriso

 Vencedor e cínico de

- "Não lhe disse?"

Irritei-me, a princípio,

 Mas acolhi-o,

 Aparentemente submisso.


 Apresentou-me um diário

 Com fatos relevantes

 Outros nem tanto

 Segundo ele

 Meros rabiscos.


 Fingi desinteresse

 Abri um livro de Nietzsche

 E pedi socorro à belíssima lua

 Que planava sobre o abajur

 Iluminando detritos.


 Difícil diálogo

 Como provar a um sábio

 Que a vida é feita de contratempos?


 Nesse embate desigual

 Nem Nietzsche me socorreu.


 Embriagado de abismos

 Acolheu-me o relento!